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TitleBOAL, Augusto - O arco-íris do desejo
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MétodoBoal
de Teatro eTerapia

Augusto

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I SBN 85 - 200- 0313-3

" Foi longo o percurso.

Meu traba Iho em teatro bem

cedo completará quarenta

anos. E ainda falta fazer

muita coisa já planejada, e

planejar muitas mais, já

intuídas. Este livro marca

uma nova etapa, completa

um longo período de

pesquisa. Éainda o Teatro do
Oprimido, mas é um novo

Teatro do Oprimido."

__111 II

Page 2

Copyright© 1992, 1995byAugustoBaal

Capa:CÉSAROLIVEIRA

Composição:IMAGEM VIRTUAL EDITORAÇÃO LTDA., Nova Friburgo,RI,
em ElegantGaramond,11/14

ISBN: 85-200-0313-3

CIP-Brasil.Catulognção-nu-fonte
SindicatoNacionaldos Editores de Livros, RJ.

Boal.Augusto, 1931-
B631a O arcoíris do desejo: o métodoBaal de teatroe terapia / AugustoBaal. - Rio

deJaneiro: Civilização Brasileira,1996.
220p.

ISBN 85-200-0313-3

J. Representaçãoteatral. 2. Psicodrama. I. Tuulo

95-1945

1996

CDD - 792.028
CDU - 792.02

Para Lula,
PauloFreire

eo
Partido dosTrabalhadoresdoBrasil

Todos osdireitosreservados.Nenhumaparte deste livropoderáser
reproduzida,seja dequemodo for, sem a expressaautorizaçãoda
EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA SA

Av. Rio Branco,99 - 20"andar
20040-004- Rio deJaneiro- RJ
Tel.: (021) 263-2082- Telex: (21) 33798 - Fax: (021) 263-6112
Caixa Postal2356/20010-Rio deJaneiro-RJ.

Impressono Brasil
Printedin Brazil

Para GreteLcutz
e

ZerkaMoreno

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dar início ao seutrabalho.Ela respondeu"sim". Então,cortei as perguntasde

Berta,e pediqueambasrealizassem,em silêncio,suasimagens.

Falamosdasdiferençasevidentes:Bertaestavasozinha,sem nadanem nin-

guémque,ao seu redor,pudessedistrairnossaatenção.Ao olharsuaimagem,éra-

mos forçados a nosconcentrarnela, jáqueela estava ali, equeem suaimagemnão
havia ninguémsenãoela, elamesma,elasozinha. Na imagemde Martha,esta úl-

tima esforçava-separaver alguémque não podia vê-la: dois homensque traba-

lhavam,queconversavam,quea ignoravam.Berta tambémnão olhavaparacanto

algum:encontrava-sediantede nóscomoqueem exposição.Não queriaver nin-

guém,queriaser vistaportodos.Demosinício à série dos três desejos:

Martha construiu imediatamente sua
imagem: dois homens que trabalham
(pintavam quadros) e que falam, duas
mesasdeitadas no chão uma ao lado da
outra no sentido do comprimento,
formando um muro altoeela,Martha,o
co-piloto,representando Berta,a prota-
gonista,do ladodefora,olhandoomuro,
sem poder enxergar os dois homens e
também sem que elespossamvê-la.

Berta hesitou muito. Gastou muito
tempo para tentar escolher os
participantes para sua imagem e,
finalmente, olhando para nós afirmou
que não precisavade ninguém.

111

Já com Berta, a coisa aconteceu de outra
forma. Eis sua série:

Ela executou gestos nervosos, soltou
alguns gritinhos, mas não se moveu do
lugar e permaneceu sozinha;

2 Ela tomou a mão de' três espectadores,
levou-ospara o palco,colocou-ossentados
no chão olhando-se entre sie permaneceu
sozinha, do lado de fora do triângulo,
dando voltassem achar o que fazer;

3 Pegouos trêshomens, destruiu o triângulo
aocolocá-losum ao ladodooutro,de modo
a criar dois públicos para si própria: nós e
os três homens na nossafrente.

3 Ela abraçou os dois homens e
sentou-se no chão com eles.

Eis osde Martha, que elaexecutou
imediatamente, sem hesitação:

Ela separou as mesas, como
alguém que abre uma porta, ou
derruba um muro;

2 Ela tocou o rosto dos dois ho-
mens para que elesa olhassem;

A PRÁTICA

A dança com o co-piloto

primeiro lugare emúltimo, sendoque issotudo sempredeveráocorrerem dois

níveis: "Isso foi feitoassim,todosnós ovimos"e "isso meparecequererdizer o

seguinte..." Nenhumdeles asinterpretará,mas atodosserápermitidoexpressar

suaopinião.

o diretor pedeaos participantesdas duas imagensparaque retornemàs suas
posiçõesiniciais. E, em câmeralenta, o protagonistae o co-piloto procurarão

realizaros mesmosmovimentose asmesmasmodificaçõesqueaquelesexecuta-

dosquandodadinamizaçãodostrêsdesejos.Mas, dessa vez, asoutraspersonagens
das imagens,tentandosentirbemquemelas são, oquerepresentame agindode

acordocomessesentimento,ganharãovida própriae, tambémemcâmeralenta,

tentarãooucontrariarosdesejosdo protagonistae doco-piloto,quandosentirem

quedevemfazê-lo,ou entãotentarãoapoiá-los,casosentiremquerepresentam

personagensquesão seusaliados.Após otérminodessa ação, deveacontecernova

trocade idéiase impressões.

A verificaçãododesejopossívele dodesejoutópico

Em Kassel,Berta foi a primeiraa proporrealizara imageme acontra-imagem.

Eu disse-lhequeela nãocompreendera:certamente,na medidaem queera ela

quemhaviacontadoahistória,ela deveriaconstruira imagem;acontra-imagem,

entretanto,era tarefado co-piloto. Ela parecianão ouvir nadae continuavaa

formular,diantedo grupo,perguntasqueela mesmanãopareciaentender.Digo,

diantedo grupo:estávamostodossentadosno chãoe ela estava de pé,diantede
nós, Eu me levanteie pergunteiao co-piloto, Martha,se ela estavaprontapara

Todosretornamàsimagensiniciais e odiretorpedequeo protagonistae oco-pi-

loto permutemseuslugares.E, apartir dessa novadistribuiçãode lugares,reali-

za-senovamenteasduasdinamizaçõesanteriores.

A permuta dospilotos

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Discutimoso quevíamos:de um lado estavaMartha, quebeijavaos dois
homens(terá sido o desejoqueela atribuíaa Berta ou seupróprio desejo?),do
outro,Berta,quedançavaentredois públicos.

Decidi continuarno meupapelde generosafada madrinhae concedi-lhes
realizarainda três desejosadicionais.Ambas pareceramficar perplexasdiante
dessaofertainesperada.Marthanão fez maisnada.Berta,sempremuito excitada,
prosseguiu:

4" desejo:vítima de uma crise deviolência, derrubouum dos homensno
chão,masdominou-seno momentoem queia procederda mesmamaneira
com osoutros,e passouo resto dotempotensa,em atitudede ameaça;

5"desejo:abandonoua atitudede agressãoe começoua dançar,sozinha;

6°desejo:comum gestorápido,derrubouosoutrosdois homens,invadiuo
espaçodo co-piloto,destruiuacontra-imagem,tomouMarthapelo braço e
olhou-a,de cima a baixo,comose estivessemedindo-a,avaliando-a... e os
segundospassavam,e seu sexto desejochegouao fim...

- Me dá mais um! - exigiu,animadamente.

Raciocineiduranteum momento,o quea deixouaindamais febril.

- Me dá mais um! Dá!

Acordei-lheessesétimodesejo.Então,BertaolhouparaMartha,queestava
ali, paralisada,sorriu-lhe,abraçou-ae, feliz, começouadançarcomela,girando,
assustandoos homensda contra-imagem,empurrandoosqueela derrubarano
chãoe, sempredançandocom suaco-piloto,comoum elefanteem umaloja de

porcelana,invadiuaplatéiaqueformávamose,então,caiu emcimade nós,igno-
rando-noscompletamente,quandotentamoslivrar-nosde seu peso.

- Vocêsgostaram?- perguntouela, ansiosa.

Eu lhe expliqueiquenão nosencontrávamosali na qualidadede especta-
doresde umapeça deteatro,paraamarou nãoum espetáculo.Nãoestávamosali
paraassistira um espetáculo.Eu disse-lhequeo "espetáculode dança"queela

nos ofertaraera oquemenosimportavaparanós. Oqueinteressavaera queela
nos havia"ofertado"algumacoisa.Nos"ofertara"a dança,a agressãoe o peso de

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seu próprio corpo,o que já nãoera pouco!... Ela nos ofereceraaquilo quenão
havíamospedido.Nos impuserasuasoferendas.Ela não quiserasabero quede-

sejávamos:ela deuparanós.Ela nos enfiava seus dons goela abaixo,obrigando-

nos aengoli-los.Ela ignoravanossavontade,da mesmaforma como não havia
tomadoconhecimentodenossapresençaem suaimagem,mostrando-sesozinha

depoisde terolhadoparanós e nosavaliado.

Bertamostraraseudesinteresseem relaçãoàs pessoascuja atençãoqueria

atrairparasi, comoum astro decinema,queamaseupúblicomasnãoas pessoas

queo compõem.E nós, nosprotegíamosdessaagressãocomoos doishomensda

contra-imagem,construindobarricadas:eles,barricadasde mesas, e nós,barrica-

das depalavras.

Na primeira imagemde Berta, osoutrosestavamtão longequeela nãoos

enxergava,sequeros colocavaem cena. Mas aí, osoutroséramosnós, nósque

estávamospróximose queela nãovia. Ela não nos via,contudoela queriaque

nós a víssemos.

Essequererser vistapor aquelesque ela não queria ver foi reveladoes-

teticamentena contra-imagem:o co-pilotoMarthaqueriaentrar,mas sempoder

ver oshomensqueestavamdentro.Entretanto,na dinamizaçãodos trêsdesejos,

ficou claroqueMarthamostrouseusprópriosdesejos,suaprópriavontadedeestar

comosoutros,e não odesejode Berta.

As pessoasutilizadasna contra-imageme nosúltimosdesejos deBertaeram

todashomens. As mulheresdo grupo haviam sido completamenteignoradas.

Bertahaviaformadoseupúblicode homens,havia invadidoo grupode homens

da contra-imagem,haviasereconhecidoem Martha,havia seamadoao amá-la

e, abraçadacomela, havia sejogadosobre oshomensdo público.

Ela, queseamavaequese viacercadade homens,dirigia não obstantesua

agressividadecontraesseshomens.Inicialmente,queriaqueeles a vissemcurtir

suadançasolitária; depois,ela oscastigoufisicamente.Ficavanervosacom sua

passividadeque,no entanto,era umaregra de nosso jogo, denossatécnica,mas

quea chocavacomosendoindiferença.

SuarelaçãocomMarthahaviasido difícil eambígua.Ela haviaolhadopara

ela comespanto,havia avaliadoa simesmaaoavaliá-la,havia secontempladoao

contemplá-Ia,sereconhecidoao reconhecê-la,e seaceitadoao aceitá-la.Havia

desfrutadocom ela da dançasolitária, da dançaconsigomesma.E, dançando

consigomesma,caírapesadamentesobre oshomensinertes.

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Maridosparecemnão ter ocostumede ser tãoeducadoscom suas esposas.
Pedi aogrupoque improvisasseumacenaordinária,do dia-a-dia,de um casal
em sua casa. Omaridogritavacom amulher,protestandocontrao pai dela,que
prometerapagaro dote em prestações e estava com ospagamentosatrasados.Por
fim, o maridoacaboupor matara mulher,queimandoseucadáverantesde en-
terrá-lo,e ficou prontoparase casarnovamente,desta vez em troca deum dote
em dinheiro,a ser pago antes docasamento.

A discussãoquesurgiuentreosparticipantesfoi esta: seriaaquelaumacena
ordináriado dia-a-dia,ou apenasalgoqueaconteciade vez emquando?Alguns
julgavamquenão ocorriamuito amiúde,masninguémjulgoutratar-sedeevento

muito excepcional,especialmenteno interior.
Desdeo início dotrabalho,compreendiquemedeparavacom pessoascuja

culturaeramuito diferentedaquelascom asquaiscostumavatrabalharna Euro-
pa, África e nas três Américas. E isso, desde osprimeiríssimosexercícios. Ao fa-
zermosa Imagemda Hora, por exemplo,falei, num determinadomomento:
"Mostremo momentoem queacordam,no dia doaniversáriode cadaum." O
exercícioparou:ninguémsabia o dia de seuaniversário,e poucopareciaimpor-
tar-lhes.

Jana Sanskritime pedirapara apresentar-lhesastécnicas introspectivas.Era
a primeira vez que eu ia utilizá-las com um grupo formado inteiramentepor
pessoasqueeram(ou quetrabalhavamcom) camponesesmuito pobres. Amaio-
ria dentreelesganhaapenaso saláriomínimo estabelecidoparaoscamponeses
na índia: um dólarpordia - e issodurantetrês ou seis mesesporano.

Duranteos doisprimeirosdias, fizemosum montede jogos ede técnicas de
imagem.No terceiro dia, resolviusarO Arco-íris do Desejo.Uma garotamuito
tímida propôs ahistória de seupróprio casamentopara realizaro arco-íris. Ela
tremia, mas,mesmoassim,conseguiuimprovisarsobre aviolênciadomésticae
foi capazde criar,posteriormente,algumasimagensde seus desejos.

A primeiraeraumaimagemdelaestrangulandoa simesma- comose seu
desejo fosserealizaro desejo de seumarido.A segunda:ela deixandoa casa -
certamentede novopor vontadede seumarido.Então,vieram: elafalandocom
ele; elaprocurandoseduzi-lo,colocandosua pernasobre abarrigadele (oator
querepresentavao maridoafastou-seimediatamentedela); efinalmente,elaten-
tandomatá-lo.

Fiqueimuito feliz de ver acoragemdessagarotatímidaquerealizavaima-
gensconcretasde seus desejos,contentede verificar aressonânciaquesuasima-

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gensprovocaramnosparticipantes(especialmentenasmulheres,quepulavamao
palco parasubstituí-laem suasimagens);quandoela terminou,senti que seu
desejo maisintensonaquelemomentonão estavaabsolutamenterelacionadocom
seu marido; ela seapresentaracomoprotagonistaquandoseussentimentoses-
tavamocultos,inclusivede simesma,mas, de vez emquando,vendoseus desejos
tomaremumaforma físicaconcreta,sentiavergonhade revelá-los aosdemaise a
si própria.Seu desejo era deacabarcom essa coisa toda.

A técnicado Arco-íris do Desejoprevêque a pessoa devalutar contraseus
desejos,um por um, - ouestimularalgumdeles - com suavontadeconsciente.
Entretanto,repareiqueela estavachorando- não quiscontinuar,ou não o pôde.
Assim, queimeiessaetapae fui diretamenteàÁgora dosDesejos:cadaumlutando
com seuextremooposto. Agarotavoltou paraaplatéiapara vercomoseus desejos
(queeramos desejos damaiorparte dasmulherespresentes)lutariamumcontra
o outro no palco, domesmomodocomo haviamestadolutandolá no fundo de
seucoração.

Iniciamoso último dia dessecurtotrabalhocom um tema de200 exercícios
e jogos para o ator e não-ator,que era As Duas Revelações deSantaTeresa: em
duplas(pai-filho), os atores têmqueimprovisarumasituaçãocomum,durantea
qualcadaum fazumarevelaçãoextremamenteimportante,quebalançaprofun-
damentesua relação,tantoparamelhorcomo parapior. Noventapor centodas
revelações feitas pormulheresestavamrelacionadasa sexo e repressão. Amaior
partedelas revelouestarapaixonadaequerercasarcom umhomemproveniente
de umacasta inferior; ou, pelomenos,quandoo homempertenciaà suaprópria
casta, ou auma mais alta,desejavamescolherseu próprio companheiroe não
aceitarpassivamenteaescolhade seus pais. Isso era osuficientepara fazerexplodir
e estilhaçarsua relação,baseadaem submissãoabsoluta.Tudo o queessasmu-
lheresqueriamerapoderescolherseusmaridosporsi próprias.Sequerousavam
falar deamorlivre.

Depois,tivemosquetrabalharA ImagemAnalítica e,novamente,a vida de
casal foi o temaescolhido.Tendoem menteo queacontecerano diaanterior,não
pedia nenhumagarotaparase expor ouapresentarsuaprópriahistóriareal.De-
cidi pedir-lhesque"inventassem"umasituaçãotipicamentepossível. Pedi aospar-
ticipantespara improvisarutilizandocomo modelosalguém(não elespróprios!)
queconhecessemmuito bem.Evidentemente,já quenãoestavamrepresentando
sua"própriahistória",sentia-seseguros e livrespararepresentarsuasverdadeiras
emoções,seussentimentose pensamentos.Por nãoteremdeclarado- "Isto sou

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eu!" - julgavam-selivres eprotegidoso suficienteparamostrar-sedo jeito que
eramrealmente.

Para deixá-losainda mais à vontade, pedi para que homensrealizassem
imagensde mulherese vice-versa. Assim,puderammostrare ver oquecriticavam

uns nosoutros.
Essasnãoeramasmaneirasnormaisde utilizaçãodas técnicas, mas estas

foram inventadaspara serem úteisparaas pessoas,nãosendopossível adaptaras
pessoas a elas. Elas foramelaboradaspara os sereshumanos,e não ocontrário.

No Teatrodo Oprimido, os OprimidossãoSujeito- O Teatroé sua lin-

guagem.

220

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