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Biblioteca Breve
SÉRIE LITERATURA

O CANCIONEIRO POPULAR
EM PORTUGAL

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COMISSÃO CONSULTIVA

JACINTO DO PRADO COELHO
Prof. da Universidade de Lisboa

JOˆO DE FREITAS BRANCO
Historiador e crítico musical

JOSÉ-AUGUSTO FRAN˙A
Prof. da Universidade Nova de Lisboa

JOSÉ BLANC DE PORTUGAL
Escritor e Cientista

DIRECTOR DA PUBLICAÇÃO
`LVARO SALEMA

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missas: «Das almas do purgatório / Sempre é bom que nos
lembremos.»

A contrastar com a dolência destas trovas aparecem,
alguns dias depois, os festejos a São Martinho, três dias
para celebração de São Martinho bispo, São Martinho papa
e São Martinho rapa, com fartas beberronias nas provas do
vinho das colheitas novas.

Passadas poucas semanas, entra a época do Advento.
E assim se completa o ciclo das festividades religiosas e
das cantigas que as celebram.

Pelo que ficou exposto, como outra coisa não seria de
esperar dada a sua origem, facilmente se evidencia que nas
cantigas de tema religioso não se pode esperar a expressão
de espiritualidade mística ou anseio transcendente.

As relações crente-divino processam-se num ambiente
de completa e afectuosa familiaridade �% haja vista a
atitude assumida perante Jesus em Menino e perante sua
Mãe. Todas as expressões poéticas demonstram uma
crença de confiante e espontânea singeleza e sentimo-las
tocantemente simples como as próprias flores campestres.

O MARAVILHOSO POPULAR

Numa rápida e belíssima síntese afirmou Leite de
Vasconcelos no seu estudo A Figa: «o espírito do povo
quase vive por igual no mundo da imaginação e no da
realidade.» 114

Evidentemente, nas cantigas do povo também
transparece essa fantasia que o anima, bem notória na
criação de um mundo maravilhoso de irresistível atracção.
Situações e seres fantásticos, poderes sobrenaturais,
superstições ainda hoje fortemente arraigadas, a tudo há
alusão mais ou menos circunstanciada em trovas e trovas.

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Assim, o maravilhoso cristªo encontra-se expresso em
composiçıes que pretendem cantar factos religiosos
alterando-os ingenuamente atØ quanto ao espaço e ao
tempo. Tal se verifica por exemplo, em composiçıes das
«Janeiras», nas quais se alude às trŒs Marias que, tendo ido
adorar o Deus-Menino, o encontram em Roma a dizer
missa:

Foram dar com ele em Roma,
Revestido no altar,
C�um cÆlix de ouro na mªo,
Missa nova quer cantar 115.

Nota-se atravØs das cantigas que o vulgo chega e
considerar as diversas invocaçıes da Virgem como
pertencendo a entidades diferentes, que se reunem e
convivem.

Outras trovas relatam encontros e falas familiares com
a Virgem, a demonstrada piedosa mÆgoa de Cristo
perante os que se ajoelham diante do seu altar a relatar as
mÆgoas que os afligem, a interferŒncia de anjos, santos e
santas.

Às vezes estabelece-se mesmo um diÆlogo em que a
Virgem, com maternal ternura, aconselha e anima a
juvenil devota que suplica a sua protecçªo: «Filha, faze
por ser boa, / Que eu farei por te ajudar.»

TambØm Jesus Cristo escuta as mÆgoas humanas e
delas se compadece, visivelmente sensibilizado, porque as
lÆgrimas lhe caem:

Fui contar as minhas mÆgoas
A Cristo no seu altar;
As mÆgoas eram tªo tristes,
Que Cristo pôs-se a chorar 116.

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MICHAËLIS DE VASCONCELOS (D. Carolina) Cancioneiro
da Ajuda, vol. II, Halle, 1904.

NUNES (José Joaquim) Cantigas d’Amigo, 3 vols.,
Coimbra, 1926-1928; Crestomatia Arcaica, 2.ª ed., Lisboa,
s/d.

PESTANA (Eduardo Antonino) Ilha da Madeira, 2 vols.,
Funchal, 1965 e 1970.

PITA FERREIRA (P.e Manuel Juvenal) O Natal na
Madeira, Funchal, 1956.

PIRES DE LIMA (Augusto C.) Cancioneiro Popular de Vila
Real, Porto, 1928; Jogos e Canções Infantis, Porto, 1943.

PIRES DE LIMA (Fernando de Castro) A Sereia na
História e na Lenda, Porto, s/d.

REY COLAÇO (Alexandre) Cantigas de Portugal, ed.
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RIBEIRO (Aquilino) Uma Luz ao Longe, Lisboa, 1948.
RIBEIRO (Joaquim) Folclore Baiano, in «Cadernos de

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RODRIGUES LAPA (M) Das Origens da Poesia Lírica em

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Portuguesa. Época Medieval, 9.ª ed., Coimbra, 1977.

SAMPAIO (Gonçalo) Cancioneiro Minhoto, Porto, 1940.
SANTO ANTÓNIO NA VOZ DO POVO Oitenta quadras

populares ajuntadas por Thamar. Lisboa, 1953.
SANTOS (Vítor) Cancioneiro Alentejano, com prefácio de

Hernâni Cidade ed., do Grémio Alentejano. Lisboa,
1938.

SOROMENHO (Alda da Silva e Paulo Caratão)
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da Etnografia Portuguesa do Dr. J. Leite de
Vasconcelos, Lisboa, 1977.

TORGA (Miguel) Mar, poema dramático, 3.ª ed.,
Coimbra, 1970.

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ZALUAR NUNES (Maria Arminda) �% Algumas InfluŒncias
Anglo-Germânicas nas «Viagens na minha Terra», Boletim de
Filologia, Tomo III, fasc. 1 e 2, Centro de Estudos
Filológicos, Lisboa, 1934-1935.

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