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Ensinando a dividir o mundo

Revista Brasileira de Educação 77

vas – grupo formado por elementos de uma gangue

sombria – procuram impedir, ao longo dos relatos, a

ação redentora dos Cavaleiros do Futuro, em Magush.

As imagens selecionadas para compor a cidade

cenográfica onde se desenrolam as tramas da novela

são parte substantiva do argumento narrativo. Elas

ajudam nessa composição híbrida que procurei des-

crever. A trama utiliza-se de inequívocos componen-

tes de uma pedagogia maniqueísta de forte acento

moral. Bambuluá é limpa, clara e organizada, ocu-

pando lugares de destaque o bar, o hotel, a praça, a

escola, um centro cultural e até um Jardim dos Pensa-

mentos Felizes. Tudo isso forma um conjunto orde-

nado, harmonioso e iluminado. Em posição oposta,

instala-se Magush, cuja composição identitária recor-

re a alguns elementos tomados de empréstimo a filmes

de ficção científica, como Blade Runner, por exemplo.

Este é o caso da representação das caóticas cenas de

rua em que, misturados com sujeira e vestígios de lixo

tecnológico, circulam os seres do mal – sombrios e

replicantes, engolidores de fogo, malabaristas e (pas-

mem!) portadores de deficiências físicas. Há também

a Floresta do Encantado, um lugar onde é sempre noi-

te, no qual, em meio a uma penumbra enfumaçada,

vagueiam personagens lendários como um homem-

sem-cabeça e uma serpente gigante, além de caveiras,

bruxas e outros seres fantasmagóricos e assombrados.

A velha metáfora de luz e sombras, de que tanto

se valeu o Iluminismo em suas narrativas para

cartografar o mundo e seus eventos, está presente com

uma contundente materialidade nos episódios da no-

vela. Sob a luz e sob os auspícios da normalidade, de

uma moral socialmente aprovada e de sentimentos

desejáveis, movimenta-se a população e os jovens ale-

gres de Bambuluá, cooperativos, trabalhadores e so-

lidários, vestidos como pessoas comuns e envolvidos

em acontecimentos da vida cotidiana. Nas sombras

de Magush, esquivam-se os “maus elementos”, su-

jos, trajados de preto à moda das socialmente pros-

critas culturas juvenis punk ou dark, sempre envolvi-

dos em rusgas e competições, ocasião em que

empregam uma linguagem repleta de gírias e xinga-

mentos. Em contraposição às músicas alegres e ro-

mânticas que embalam a vida dos sonhonhocas em

Bambuluá, entoadas predominantemente pela heroí-

na Angélica, em Magush o rock surge como o som

execrável que acompanha os feitos malévolos dos

sombrios. Seu principal intérprete é um roqueiro sujo

e malcheiroso, o vilão cujo nome é Carniça Podre.

Como mais uma alegoria moderna de inspiração

platônica estão os embates entre os Cavaleiros das

Trevas, fiéis seguidores do temido tirano Senhor

Dumal, e os Cavaleiros do Futuro, que defendem o

bem. O mago Tchilim, representado por um boneco

careca vestido com um manto azul, conhece o pre-

sente, o passado e o futuro, e pode intervir no destino.

Tchilim paira sobre esses dois mundos e presenteou

Angélica com um talismã feito de uma lasca do Cris-

tal de Bambuluá, o que dá a ela alguns poderes mági-

cos utilizados freqüentemente para ajudar os Cava-

leiros do Futuro.

Concordando com Edward Said (1995) que as

histórias estão no cerne do que se diz sobre as identi-

dades, e também com Larrosa (1996), quando afirma

que tudo que nos passa alguma coisa pode ser consi-

derado um texto, e que a nossa formação implica a

escuta do que as coisas têm a nos dizer, volto minha

atenção para os textos e as histórias da televisão e o

que eles estão contando, o que estão ensinando para

as crianças e jovens que se postam (ou são postados!)

diante dela neste recém-iniciado século XXI. Como

as tramas de Bambuluá estão envolvidas nos ensina-

mentos que contribuem para acirrar as divisões do

mundo de que nos fala Willinsky?

Conformado pela lógica baseada na arquetípica

narrativa da luta do bem contra o mal, o texto cultural

de Bambuluá relata-nos suas histórias invocando re-

correntemente aqueles elementos que mais têm visi-

bilidade para sua equipe de produção. Isso correspon-

de a dizer, no caso da Rede Globo, que aquilo que é

apresentado como padrão desejável está inteiramente

construído sobre crenças, valores e atitudes típicos

das chamadas camadas médias da população, ou me-

lhor, da concepção que a equipe de produção da Rede

Globo tem do que sejam as camadas médias brasilei-

ras de hoje. E não poderia ser de outra forma, já que

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